8.4.10

A cidade e as (muitas) pessoas

A experiência de andar de metrô ou ônibus em São Paulo quase sempre me ativa um olhar meio antropológico, no sentido de estranhar o familiar, o banal. Especialmente no que diz respeito à grande proximidade física entre as pessoas que utilizam os transportes públicos. Numa época em que o individualismo molda nossos desejos, anseios e perspectivas, e as relações afetivas tem sido comumente dissociadas do contato corporal (como os encontros adolescentes nos tem mostrado), acredito ser peculiar esta proximidade física forçada que diariamente se vivencia com uma coletividade incontável, mas que se materializa enquanto pessoa, por exemplo, numa jovem de roupa social e unhas azuis que está bem ao seu lado (lendo o mais novo livro da Marian Keyes). Talvez até possamos sentir seu perfume. Porém, nada mais sabemos, ou nem queremos saber. Uma janela indiscreta para o voyeur? Um profundo incômodo? Talvez um paradoxo urbano... psiquicamente mais ensimesmados e solitários, cotidianamente mais aglomerados e com “espaços-de-si” misturados. Sentir-se sozinho ou acompanhado nunca pareceu tão desconectado da realidade concreta.

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